Intervenientes: Dra.Alexandra Correia - Coordenadora Núcleo Sul
Ana Rita Silva
Joana Costa
Joana Pedras
Descrição/Relatório: Iniciámos a nossa entrevista com uma pequena apresentação do nosso projecto. Informámos ainda a Dr. Alexandra que momentos antes da entrevista tínhamos ido ao IPO, onde fomos informadas, pelos serviços administrativos, que teríamos de aguardar uma resposta ao nosso pedido... A Dr. Alexandra Correia alertou-nos que nem sempre é fácil conseguirmos a ajuda do IPO, devido aos inúmeros pedidos que recebem e devido ao trabalho que fazem no dia-a-dia.
-Um dos produtos do nosso projecto seria entrevistar médicos, doentes, pais de doentes, voluntários, psicólogos, etc… Seria possível arranjar ajudar para isso através da associação acreditar?
Uma das “regras” da associação é não permitir que se façam entrevistas a doentes e famílias de doentes, porque têm muitos pedidos para isso e permitir, por exemplo, que 120 grupos entrevistem 12 famílias é cansativo para eles. Para além de que fazê-las relembrar e falar sobre tudo o que passaram é doloroso. Assim, é uma forma de os proteger. Na questão dos médicos também não nos poderiam ajudar, porque na associação não existem médicos, mas de resto estão disponíveis para tudo.
-De onde surgiu a ideia de criar esta instituição? Como é que ela funciona e para quem é direccionada?
A Acreditar é uma associação de pais de crianças com cancro que perceberam que há coisas que podem ser feitas e devem ser feitas para dar resposta a outros pais que tal como eles, passaram pela mesma situação. Porém, nem todas as pessoas que colaboram com a acreditar têm filhos com cancro. É direccionada às famílias de crianças com cancro, e ajudam-nas, conhecendo-as e tentando perceber em que podem ajudar (por exemplo arranjar um trabalho para uma mãe, arranjar uma ocupação de tempos livres para o irmão que perdeu um pouco a atenção, dar uma espécie de abono, etc…). As famílias que estão na associação, que podem ser até 12, são famílias que são longe de Lisboa e que para não sujeitarem a criança doente, em tratamento, ao stress, ao cansaço e não esquecendo o grande dispêndio monetário, ficam na associação que é mesmo em frente ao IPO, por esta razão.
-Para as famílias poderiam usufruir dos serviços desta associação o que têm de fazer? Até quanto tempo podem ficar na associação?
As famílias que aqui estão podem ficar o tempo necessário, a que ficou mais tempo, ficou durante dois anos e oito meses. A entrada para a associação é feita através do serviço social do hospital, ou seja, a assistente social que conhece as situações de cada família a fundo é que reencaminha as que possuam o perfil da casa Acreditar. E não são necessariamente famílias carenciadas, mas sim que estão distantes das suas casas.
-De onde provêm os fundos para a Acreditar?
Provêm através de mecenato, ou seja, são patrocínios, como empresas ou privados que fazem donativos. A associação não tem o apoio do estado, no entanto recebem um certo valor por cada família que albergam através da segurança social.
-Qual a idade mínima para ser voluntária?
A idade mínima era de 18 anos, só que recentemente passou para os 21 anos. Isto porque tem de haver um certo distanciamento entre o jovem que está a ser tratado e os voluntários. Têm de saber lidar com a situação e a idade dos 18 anos é a idade da descoberta, entra-se para a faculdade, conhecem-se novas pessoas e por vezes os voluntários deixavam de se dedicar a 100% ao seu trabalho. Assim têm tempo para viver tudo, amadurecer, ganhar experiência e depois então ajudar e dedicarem-se plenamente.
- Que tipo de produtos poderíamos angariar?
Há dois tipos de projectos que a associação costuma dinamizar:
- O projecto dos pensos rápidos coloridos, que são levados para o hospital e dados às crianças, para não terem os típicos pensos castanhos e assim, quando fazem análises os podem pôr e não pensar tanto nas análises em sim.
- O dos brindes, que normalmente são dados pelas escolas, e levados pela acreditar para o hospital de dia (onde as crianças fazem análises) e postos num armário. Todas as crianças que lá vão podem tirar um, e assim concentrarem-se no brinde e abstraírem-se do resto. Como a Acreditar não costuma organizar peditórios, pois já por várias vezes se têm feito passar pela associação para pedir ajudas monetárias, o que poderiam fazer era levarem artigos daqui, como t-shirts, relógios, marcadores de livros e porta-chaves, etc… Que venderiam. Posteriormente, doariam-nos o dinheiro angariado com as vendas. Para isso, porém, é necessária a autorização do sítio onde irão vender os artigos.
-Existem muitas mortes em crianças provocadas pelo cancro? Qual o tempo médio de tratamento?
Não, hoje em dia há mais crianças que sobrevivem, entre os 60% e 80%, mas tudo depende do tipo de diagnóstico. Se for uma criança com, por exemplo, um tumor cerebral, as hipóteses são muito mais reduzidas, apenas até 10% sobrevive. O tempo médio de tratamento de uma criança com cancro varia entre os dois anos e meio e os 6 anos.
-As crianças conseguem conciliar a doença com a escola?
Vai sendo cada vez mais fácil, pois o IPO tem uma própria escola na pediatria que trabalha em conjunto com a escola em que as crianças estão inscritas. Juntas tentam fazer com que o curriculum seja mantido, para que as crianças não percam nenhum ano e que façam os mesmos testes que a turma está a fazer, mesmo quando estão internadas.
-Estão disponíveis para outras reuniões e uma possível palestra na escola?
A associação gosta muito de trabalhar com crianças e com escolas, pois estas também têm de saber receber uma criança doente, por vezes careca, que nem sempre vai às aulas (quando vai é por pouco tempo), que por vezes se sente enjoado ou até mesmo com medo de morrer. Sempre que necessitarem podem aqui vir é uma questão de combinar. Numa fase em que o vosso projecto esteja mais maduro vêm conhecer as nossas instalações, porém não podem tirar fotografias às crianças e pais, mais uma vez, para não as expor. Também estaremos disponíveis para eventuais palestras.
Terminámos assim a nossa entrevista, mas ficou a vontade de lá voltar.